quarta-feira, 30 de maio de 2012

O espelho é um amigo cruel



O auto-conhecimento (agora com hífen, ou sem hífen??) é um processo costante, e quem me conhece bem sabe que mergulhei de cabeça nesse processo, como tudo que faço, essa também é uma área da minha vida que vivo intensamente.

O espelho é, porém, um amigo cruel.
O espelho te reflete sem disfarces. Não há fotoshop, não há jogos de luzes, não há como esconder aquelas partes indesejadas de si mesmo. Se está lá, o espelho nos mostra, e sem meias palavras, sem cuidado ou delicadeza, somos expostos a imagem totalmente desnuda de nós mesmos.

Claro que isso vale para os espelhos físicos, também igualmente fiéis a realidade; mas como estou falando de auto-aprimoramento, e não de saúde, ginástica ou estética, deixemos estes de lado (por um momento apenas, pois voltarei à eles), e nos concentremos nos espelhos simbólicos.

Um espelho simbólico pode ser tudo aquilo que nos reflita nos mesmos. Uma pessoa com os nossos mesmos hábitos irritantes, uma situação onde nosso eu mais verdadeiro nos seja exposto, um amigo que nos mostra como somos, um livro no qual nos vemos, um momento em que saímos de nós mesmos e nos olhamos "de fora". Qualquer situação que nos tire dos mil pensamentos que ocupam nossa mente de maneira frenética e desesperada e que nos impedem de entrar em contato com nós mesmos, e nos coloque ali, cara a cara com o que somos.

Voltemos ao espelho físico. Pegue um agora, coloque na frente do seu rosto e olhe. Resista à tentação de focar na sua aparência física. Olhe dentro dos seus olhos, e sinta. O que você vê lá dentro? O que esse exercício te faz sentir? Mais uma vez, não pense, apenas sinta... Quais foram esses sentimentos? Foram bons ou ruins?? Se deixarmos, o espelho físico pode ser um bom espelho simbólico também. Um tão poderoso que a maioria das pessoas não se sente bem em fazer esse exercício.

E aí, entram dois pontos importantes: o primeiro, é que auto-conhecimento não vale nada se não for gerador de mudanças. Essa história de nasci assim, cresci assim, vou ser sempre assim funciona apenas na música, ou como uma defesa pra gente não encarar o que nos assusta em nós mesmos.

Não estou falando em mudar para agradar os outros. Estou falando em promover aquelas mudanças que são fundamentais para nos fazer pessoas mais felizes, mais completas. Aquelas mudanças que nos trazem paz por nos aproximarem daquilo que somos como potenciais.

O segundo ponto, é que não há mudança verdadeira sem aceitação. E talvez aí esteja a maior dificuldade que temos em mudar, porque aquele incomodo em frente ao espelho, é puro julgamento. É você apontando o dedo para você mesmo e dizendo: "veja como você é errado!"; "veja como você é mal", "veja como você merece todas as coisas ruins que acontecem na sua vida!". Esse incomodo em frente ao espelho é pura crítica, e, em geral, nos julgamos de uma maneira muito mais cruel do que julgamos aqueles à nossa volta, do que julgamos aqueles a quem amamos.

E então desviamos o olhar do espelho, arrumamos o cabelo e saimos para o dia a dia e para os pensamentos e atividades que tiram meu olhar dos meus defeitos... É mais fácil assim. Encarar a si mesmo é um processo aterrorizante se não há aceitação. E sem encarar a nós mesmos, nenhuma mudança é possível.

Sim, somos imperfeitos. Todos.

Todas as nossas características nos servem ou serviram em algum momento da nossa vida. Todas elas nos protegeram, de alguma forma, da dor que queríamos evitar. Não há bem ou mal, há apenas consequências, e, se conseguirmos passar pela fase do medo, segurar nosso olhar no espelho e encarar a jornada do auto-conhecimento, talvez um dia nos peguemos avaliando as consequências das nossas imperfeições no hoje, definindo o que não nos serve mais, agradecendo pela protação e ensinamentos que nossos defeitos nos trouxeram até o momento, e trabalhando para deixá-los ir.

Sim, é difícil. Sim, repetiremos as mesmas ações que queremos mudar algumas vezes, por puro hábito, mas, com aceitação incondicional de nós mesmos  persistir no caminho da mudança torna-se não uma pesada obrigação, mas um prazer.